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27.2.11




"Não dizia palavras,
Aproximava apenas um corpo interrogante,
Porque ignorava que o desejo é uma pergunta
Cuja resposta não existe (...)"

Luis Cernuda

26.3.10




gostaria de descrever a emoção mais simples
alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
procurando chegar a dardos de chuva ou sol

gostaria de descrever a luz
que está a nascer em mim
mas sei que não se parece
com nenhuma estrela
porque não é tão brilhante
nem tão pura
e é inconstante

gostaria de descrever a coragem
sem arrastar atrás de mim um leão poeirento
e também a ansiedade
sem agitar um copo cheio de água

dizendo de outra maneira
daria todas as metáforas
em troca de uma palavra
arrancada do meu peito como uma costela
por uma palavra
contida dentro dos limites
da minha pele

mas aparentemente isso não é possível

e só para dizer — eu amo
corro em círculos como um louco
apanhando mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que afinal de contas não é feita de água
pergunta à água por um rosto

e a ira
diferente do fogo
pede-lhe emprestada
uma língua loquaz

tudo tão emaranhado
tudo tão emaranhado
em mim
que o senhor de cabelo branco
desfez o emaranhado de uma vez por todas
e disse este é o sujeito
e este é o complemento

adormecemos
com uma mão debaixo da cabeça
e com a outra
num aterro de planetas

os nossos pés abandonam-nos
e tocam a terra
com as suas raízes minúsculas
que de manhã
arrancamos dolorosamente


Zbigniew Herbert

24.2.10

apontamento: tardo em escrever-te


Tenho pensado em ti.
Naqueles momentos em que a mente divaga sózinha é em ti que penso. E é estranho porque não penso no que somos. Penso em conversas. Penso em gestos. Penso em possibilidades.
Penso em ti porque penso. Porque somos amigos. Mas agora é estranho.
Questionam-me de uma forma a que não sei responder. Andam a introduzir-se ideias estranhas na minha cabeça.
Imagens. Músicas, tantas, tantas melodias.
Tenho pensado em ti. Ensaiado mil diálogos. Encenado situações. Visto a lua intrometer-se em todo o lado.

Outra vez.


8.2.10

Horas vagas




A meio deste romance
em que nenhum é chefe
dos afectos, não houve traição
a que soubesse o desejo fugir.
A mentira – passam-se meses
nesse abismo – há-de acabar
por entreter as personagens,
moldar a penumbra
de que se injecta a desilusão.

Voltas para mim,
de casaco debotado, sapatos
cor d'enfim, com mais embustes,
lixo erótico, «sempre tive saudades tuas.»
Já não.

A solidão é um modo
de manter limpo o coração.


Fernando Luís Sampaio
in Escadas de incêndio, Quetzal

Benilde ao balcão 4




Não vos contei decerto
que a Senhora Dona Benilde
gosta " de carinho e de falas mansas"
como todos nós, alguns,
e eu à quarta cerveja
recordo-me que te não tive,
acontece, quando a noite cai
e não temos ombros que cheguem

e esbanjamos em cerveja e mijo
o que outros chamaram amor.



Manuel de Freitas
in Game Over, & etc.

28.1.10

You and Cinnamon




You and cinnamon

A clear deep blue sky.
the sun (oh the sun) on a very cold day.
B&W photographs (specially portraits).
Gray areas.
Talking with friends on a street with a bright big moon over us.
Try to see both sides of everything.
Music (from a simple instrumental melody to epic orchestral tales; sad lyrics to screaming the same silly sentence over and over).
The electric charge I feel whenever I'm close to you.
Walking, just walking around.
Discussing something passionately.
Stare contests (which I allways lose).
Honesty.
An embrace (specially yours) driven by emotion.
The joy and fear I feel when I realize I'm witnessing a unique moment in time.
Carol
fotografia por SarahDeShields

23.12.09

"I'm Going To Stop Pretending That I Didn't Break Your Heart"

Descobri esta música há algum tempo. Naquela altura, naquele momento, esta voz, as palavras, eram o que eu precisava de ouvir. O que precisava que me dissesses.
Passaram anos, 3 ou 4 como na música. O tempo passou. Estamos diferentes, tu e eu. Talvez não assim tanto. Os teus olhos ainda me olham, doces, curiosos, perdidos. O meu coração ainda acelera sempre que te vejo sorrir. Mas mudámos, tu e eu.
Hoje, não sei bem porquê, lembrei-me de ti e esta música fez sentido outra vez...









"I'm gonna tell you what you need to hear
And i'm a little too late
By three or four years
And it may not make much sense
Now that we are apart
But i'm going to stop pretending
That i didn't break your heart

You see i never thought enough of myself
To realize that losing me could mean
Something like the tears in your eyes
And i want to tell you i'm sorry
And it's too late to start
But i'm going to stop pretending
That i didn't break your heart

And it's christmas eve
Years down the line
Sitting here wishing i'd treated you better
When you were mine
And i have no way of knowing where you are
But i'm going to stop pretending
That i didn't break your heart

I didn't mean to hurt you
I didn't know what i was doing
But i know what i have done"


Eels




tudo no teu sorriso diz
que só te falta um pretexto
para seres feliz

Mário Cesariny

22.12.09




Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas





adília lopes

9.11.09




hoje chove muito, muito,
dir-se-ia que estão a lavar o mundo.
o meu vizinho do lado vê a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher com quem vive
e lhe faz a comida e lava a roupa e faz amor com ele
e se parece com a sua sombra
o meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta entra-se em muitos sítios
no trabalho, no quartel, na prisão,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher
nem na alma
quer dizer
nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje
que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e só a alma sabe onde as duas se encontram
e quando
e como
mas que pode a alma explicar?
por isso o meu vizinho tem tempestades na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na mesma noite em que ele amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que existe entre duas rosas
ou como eu
que escrevo palavras para regressar
ao meu vizinho que vê a chuva
e à chuva
ao meu coração desterrado


Juan Gelman

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